BLOGS E BLOGUEIROS

 

Indiscutível que temos a democratização da notícia em nossos dias. Ainda iniciei a minha vida de jornalista com uma máquina Remington. Era um desastre quando encontrávamos um erro qualquer, no início da página, e descobríamos somente ao concluí-la. Às vezes o corretivo salvava. Depoi aconteceu uma revolução. Eu trabalhava no SIOGE (regente do coral) e vi a primeira Composer (acho que se escrevia assim). Era a chance inimaginável de se corrigir o texto de maneira automática. Uma revolução.

Mas o império da comunicação escrita era o jornal. Tive a minha primeira oportunidade no antigo Jornal de Hoje, dirigido pelo amigo Américo Azevedo Neto. Escrevi algumas coisas em O Imparcial, mas devo muito ao Atos e Fatos, do meu saudoso amigo Udes Cruz, que me proporcionou a possibilidade de ser, de fato, um colunista político. Terminei no Jornal Pequeno, onde consolidei-me com a coluna Janela Livre, que volta, agora, como Blog e como programa de rádio, na Rádio Capital AM, 1180, aos domingos, das 8 às 9 horas.

Também o mundo sofre revoluções de meios, métodos e costumes a cada instante e, no reino das comunicações, multiplicaram-se as possibilidades, dentre elas essa coisa chamada BLOG. Criou-se neologismos: blogueiros e blogosfera. No passado recente, um blogueiro necessitava ser ancorado em um jornal. Agora, conheço jornais apoiados no prestígio de seus blogueiros. Criou-se novos costumes, a tal ponto que, muitas vezes, as pessoas que não mais procuram ler jornais, porém simplesmente surfam na net, através dos blogs.

Por outro lado, não há a necessidade de se ser jornalista para ter um blog e isso, muitas vezes fere os orgulhos e vaidades tolas. Eu mesmo me pergunto, tantas vezes, vendo determinados blogs, seu conteúdo e seus acessos, o porquê? A dúvida vem da minha mente tradicional, com certeza. Tenho que entender que há uma mundo de desejos diversos do meu, com entendimento diferente e que se satisfazem com outros conteúdos. O mundo do blog, a tal blogosfera é, de fato, um mundo novo, relevante e que ainda não aprendemos a lidar com ele. Mas é tão interessante que estou me acostumando com esse novo epíteto: sou blogueiro.

Essa introdução, a faço, por estar incomodado com os encaminhamentos de uma operação da Polícia Federal, denominada de Operação Turing, que levou a prisão alguns blogueiros, dentre eles o jornalista Luis Cardoso.

O jornalista Luis Cardoso, antes de outras delongas, é um dileto amigo que ganhei há muitos anos, juntamente com outros dois que já se foram: Udes Cruz e Raimundo Nonato Assub. São dezenas de anos e nesses anos pude conhecer a capacidade jornalística, a verve de obter a notícia, a coragem, tantas vezes, quase irresponsável, em dá-la. Foi assessor, líder de classe, fundador e proprietário de jornal e encontrou-se no blog, com um sucesso retumbante que incomodou poderosos e muitos da própria imprensa. Esse incômodo tem nome e sobrenome: cobiça e inveja.

Acompanhei, principalmente pelas rádios, os comentários doutros sobre o episódio. Foi interessante, principalmente no quesito falta de solidariedade. Em alguns casos foi vergonhoso. Em uma determinada emissora, o âncora estava inconformado. Dizia: como pode ser uma prisão de um só dia, ele tinha que passar preso, pelo menos cinco dias; a Polícia Federal tem que explicar porque ele não ficou preso, etc. Era o efeito milhões de acessos no blog do Cardoso. O cara não se conformava.

Não tenho, diga-se de passagem, o intuito de canonizar o Luis Cardoso. Nunca. Mas incomodar-me com questões mais relevantes. A primeira é compreender se o episódio é uma questão criminal, ou conveniência de alguém incomodado com suas abordagens jornalísticas?

Está posto que dentro da Polícia Federal estava um informante. A PF ter um informante é um problema único da PF, de mais ninguém. O jornalista não tem nenhum dever de guardar notícia e divulgá-la é da essência de sua função e profissão. É mais ou menos como o bisturi na mão do cirurgião e, se ele não usá-lo, nunca será cirurgião. Quanto a divulgar a fonte, jamais.

A nebulosidade da operação vai mais além. O tal informante da PF era uma alta autoridade do governo Dino, portanto de absoluta confiança do governador. De repente a indicação do sujeito ficou sem paternidade, ou jogaram para A, B ou C. Tudo onda. O governador não pode ser responsabilizado pelos atos do subordinado, mas jamais se inocentar da sua indicação. A tentativa de obscurecer essa evidência não ajuda ao governo e fa-lo-á mais sujeito a dúvidas.

Outra evidência é mais grave. O pedido chega para a justiça no dia 8 de março, o tal Danilo é demitido no dia 9, o juiz assina a decisão de prendê-lo no dia 13 e as prisões se efetivaram no dia 19. O pior é a justificativa: o X9 saiu de “maneira voluntária, portanto a pedido dele, por motivos particulares”. Só está correto os “particulares” se estiverem relacionados com o vazamento de coisas dos outros O Palácio dos Leões pode jurar, rezar terço ou plantar encomendas em encruzilhadas, se dizendo inocente a tudo isso, mas ninguém, ninguém mesmo, tem obrigação em acreditar no Palácio dos Leões. No dizer do finado Renato Sousa, me compre um bode!!!

No meio desse anedotário, que dará um bom folhetim, tem a história de que os “extorquistas” obtiveram automóveis luxuosos do seu Matheus. Dá para se pensar. O seu Matheus é maior de idade, vacinado contra rubéola, sabe dirigir bicicleta, casou, tem filhos e, vitima dda extorsão, se cala. Uma polícia séria investigaria primeiro o seu Matheus e não o blogueiro. Uma polícia que respeite a inteligência dos outros e a sua própria reputação, antes de passar pelo Cardoso, teria que fazer uma abordagem em Matheus. Por que não o fez? Com a palavra o delegado.

Posto como está, subtende-se que o pobre senhor Matheus é um hiposuficiente na vida civil que, achacado por tantos bandidos, não soube se defender e precisou que a briosa Polícia Federal o fizesse, sem nenhuma provocação.

Agora sobra em mim uma indignação. A polícia Federal que tão bem soube defender seu Matheus precisa olhar alhures e algures. Vou dar uma pequena lista de maranhenses sofredores que precisam da defesa da nossa gloriosa PF: João das Quantas, Maria do Preceptório Roxo, Joaquim do Queixo Caído, Rabinália Prequeta e seu Pedro do Rabo Mole. Como seu Matheus, esse liso que todos conhecemos, merece a proteção estatal, esses milionários por mim elencados, também merecem.

Voltando à seriedade. Esse episódio, absolutamente mau contado, tem cheiro de uma tentativa espúria de amedrontar a imprensa e obturar a crítica. Sonho que as minhas preocupações se demonstrem falsas, pois quedaria em definitivo o respeito para com a democracia, a ideia de que governo (governo Dino) que se ufana de democrático, seja, realmente, democrático. Pelo sim e pelo não, o esclarecimento real, sem peias e arreios fará bem a todos nós e, ao governo, muito mais.

2 pensou em “BLOGS E BLOGUEIROS

  1. Meu caro amigo Bentivi, belo texto! Cara, se tu saíres da “Janela Aberta”, quer por por preguiça (que nunca tivestes), ou por leniência (flagelo que nunca te alcançou), ou por qualquer outro motivo que não a ordem do Pai, certamente Jeová te fechará a “porta”. Hehehe
    Gostei de como trataste o caso, com a sabedoria e o equilíbrio de tuas palavras, sem contudo deixar de pontuar importantes questões a serem respondidas a contento.
    O governo Dino logo será um “dino (ssauro) da democracia” se logo não se explicar. E a Polícia Federal, se não deixar de ser “massa” de manobra, acabará por tomar sobre si a pancada da “maça” da história.
    Desejo e oro que teu blog seja sempre um afiado instrumento da justiça do reino!

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