FOI-SE UM PASTOR E FOI-SE UM AMIGO

FOI-SE UM PASTOR E FOI-SE UM AMIGO

João Melo e Sousa Bentivi

Era de pequena estatura e poderia passar despercebido na multidão, mas sintetizava como ninguém a costumeira frase: nos pequenos frascos, as melhores essências. Trato do pastor Oséas Barbosa de Lima que, nesse final de semana, achou de deixar os limites desse planeta, para adentrar em lugares mais especiais, à disposição dos verdadeiros servos do Altíssimo.

Nascido em 12.09.37, filho de Renato Barbosa de Lima e Emilia Maria das Dores Lima, dos rincões do Nordeste aportou em terras maranhenses, onde fincou as suas maiores raízes. Casado com Estelina Ataide Lima e brindado com um casal de filhos: Arely Ataide de Lima, psicóloga, e Arly Ataide de Lima, ministro do evangelho.

Foi ordenado pastor, em 1962, pela ordem de Ministros Batista da Convenção Brasileira e pastoreou muitas igrejas: Primeira Igreja Batista de Natal,  Igreja Batista de Mossoró, Igreja Batista em Lagoa Seca e, finalmente, Igreja Batista Nacional do Bom Milagre, de 1970 a 2019.

O seu trabalho missionário é vasto e pode resumido: pioneiro do trabalho Batista Nacional no Maranhão, Piauí, Pará e toda Amazônia Legal; fundador e diretor do IBAM (Instituto Bíblico da Amazônia, em São Luís); fundador, diretor e professor do SETEBAN (Seminário Teológico Batista Nacional); participante ativo e fundador da ALBAMA (Aliança Batista Missionária da Amazônia), CIBANORTE (Convenção das Igrejas Batistas Nacionais do Piauí, Maranhão, Pará e Amapá), CIBAMAPI ( Convenção das Igrejas Batistas Nacionais do Maranhão e Piauí), CBN-PI (Convenção Batista Nacional do Piauí) e CBN-MA (Convenção Batista Nacional do Maranhão).

Convivi com ele e congreguei-me no seu redil por mais de vinte anos e pude aprender e entender, com ele, o que era e o que é ser, de fato, um pastor.

Tinha a firmeza doutrinária, sem que com isso fosse um intransigente ditador da fé e sabia, como ninguém, conhecer as diversidades, divergência e incompreensões da mente humana.

Repito por ser deveras importante: foi o pioneiro da renovação batista em toda região Norte e Nordeste, em um momento que pentecostalismo era entendido como patrimônio exclusivo das Assembleias de Deus e renovação espiritual uma verdadeira apostasia para os credos tradicionais, notadamente os batistas. Como Moisés, enfrentou um povo de dura cerviz.

Não desistiu e a exuberância da obra mostra a aprovação dos homens e, acima de tudo, a aprovação de Deus. Abriu trabalhos mundo afora e, somente no Maranhão, são muito poucas as cidades sem um trabalho Batista Nacional.

Entretanto um detalhe mostra toda a diferença. Na contramão da tantos líderes alhures e algures, Oséas não era patrimonialista, não tinha sede nem de poder e nem de dinheiro. Colocava o fruto do seu trabalho e de sua família em função da obra missionária. Não fez fortuna usando a fé de crentes e incautos, mas amealhou um vasto tesouro nos céus.

A todas as igrejas, muitas centenas, que saíram do ventre da Igreja Batista Nacional do Bom Milagre, Oséas deu a liberdade de se tornarem independentes e crescerem de maneira livre. Nunca foi e nunca desejou ser tutor de ninguém.

A humildade também era sua marca e a humildade carrega sempre algo chamado obediência e, apesar de sua liderança, nunca pleiteou ser o escritor dos destinos de ninguém, obedecia às determinações com disciplina castrense.

Por outro lado uma aptidão sobressaia: tinha bons ouvidos para ouvir aos outros e tinha bom discernimento para entender aquilo que ouvia. Sou um perfeito exemplo disso.

A primeira vez que conversei com Oséas foi interessante. Não o conhecia e nem me lembrava que existia uma Igreja Batista nacional do Bom Milagre. Estava afastado de minha igreja-mãe e, em um momento de aflição espiritual, queria voltar. Ao tentar voltar para a então minha igreja, um determinado pastor recebeu-me a bordoadas e apresentou-me tantas restrições e penitências que me pareceram insuportáveis.

Meio sem rumo, parei em frente a Igreja Batista nacional do Bom Milagre, em um domingo de manhã e entro. Era cedo, quase não havia ninguém ainda, na Escola Dominical, e lá estava Oséas. Ela não me conhecia, eu não o conhecia e nem lhe disse quem eu era. Sem delongas, disse-lhe: estou afastado de minha igreja e quero me reconciliar, o senhor me aceita?

Foi tudo muito simples. Respondeu-me: sim, Jesus aceita todos os seus filhos e você é um dos seus filhos. Ajoelhei-me, orou por mim e voltava a congregar-me. Repito, foi tudo muito simples. Mas a simplicidade decorria de estar falando com um verdadeiro pastor e um verdadeiro pastor jamais expulsa, mas acolhe. Oséas era um verdadeiro pastor.

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