ELOGIE A QUEM VOCÊ NÃO AMA

ELOGIE A QUEM VOCÊ NÃO AMA

João Melo e Sousa Bentivi

A vida em sociedade se torna cada vez mais difícil e, no circuito familiar, não é diferente. A noção mais comum é que os problemas de relacionamento se devem ao cometimento de erros. Isso é verdade, porém não é a explicação única.

Há inúmeras desavenças e crises que não se estribaram em falhas, mas, muito mais, no desconhecimento ou, pior, no não reconhecimento dos acertos.

Basta focar no micromundo dos casais e perguntar: há quanto tempo, o seu esposos ou esposa, companheiro, ou qualquer denominação que o valha, não ouviu um elogio de sua parte? Em regra, faz tanto tempo, que esse tempo está no mais profundo esquecimento, ou nunca existiu esse fato.

Sim, há casais que convivem dezenas de anos e chegam a morte, sem que em uma única oportunidade alguém ouvisse um “muito obrigado”, “você é espetacular”, “você é importante no meu viver”, etc. etc.

Por outro lado, se perguntasse para qualquer casal, qual foi a última reclamação, por serem tantas, a dificuldade seria determinar a última. O pior é que, na maioria das vezes, a reclamação é atávica, repetida, e cujo efeito nunca será a correção, mas a simples e danosa aporrinhação no relacionamento.

As reclamações repetidas são fontes de imutáveis contendas, conflitos e desenlaces e nunca se viu nenhuma felicidade baseada em reclamações.

O mesmo se dá com os filhos. Pais há que só se manifestam se os filhos tiverem boas notas escolares, em contrário, reclamações e corte de privilégios. Será que o único fator importante, em um filho, é o rendimento escolar? Nada mais vale?

Do outro lado, há pais que sonharam a vida inteira com um abraço ou um beijo dos filhos, eivados de espontaneidade. Morreram sem tê-los. Agradecimentos só aparecem se vierem na cauda de presentes materiais, como celulares, computadores, automóveis e similares.

Conheço um pai, pra lá de empolgado, com uma grande inserção científica e cultural, que o maior desejo e felicidade do seu coração seria receber elogios e afagos dos seus filhos, já que sua esposa não é dada a elogios. Não obteve até agora. Essas práticas não ocorrem se não forem costumeiras. Não foram.

Outro aspecto diz respeito a vaidade.  Muito comum dizer-se que quem gosta de elogios é um vaidoso e alguns colocam a vaidade como sinônimo de pecado (não está no decálogo). Há múltiplas formas de ser vaidoso e a vaidade pode, inclusive, ser construtiva para o indivíduo e para o mundo. A premissa é que a vaidade não prejudique a outros, que você não prejudique a ninguém. Sendo assim, seja vaidoso.

Voltemos aos casais. De repente, o argumento fidelidade sobrepuja a todos os outros argumentos. Quem disse que a fidelidade, sozinha, determina um lar feliz? Conheço centenas, milhares de casais que tiveram infidelidades, no decorrer do percurso, e obedeceram o “até que a morte os separe”. Inclusive porque tem um argumento bem maior que a fidelidade, santo, denominado perdão.

Jamais admitirei que a fidelidade conjugal não importa, pois nunca defenderei uma assertiva antibíblica. O que enfatizo é que somente ela não constrói um lar feliz. Piora muito, quando a fidelidade se transforma em moeda de barganha: eu sou fiel!!!!

Ser fiel não decorre do reconhecimento de outrens, mas de uma determinação interior e a fidelidade de alguém não está determinada pela fidelidade do outro. É decisão pessoalíssima.

No casamento ou acasalamento, a espontaneidade tem que ser maior que a obrigatoriedade. Dentro dessa espontaneidade está o reconhecimento de que a sua fidelidade não obriga a ninguém ser fiel e é primariamente, repito, uma decisão pessoal. Alguém ser fiel, somente se o outro o for é comércio, troca, escambo, simplesmente isso e nada mais.

O título desse arrazoado foi ELOGIE A QUEM VOCÊ NÃO AMA. Fi-lo para provocar. A ideia cristã é fazer o bem, indistintamente, para todos e essa ideia tem que ser perseguida, mas se você não consegue fazer o bem para os que estão na sua proximidade, notadamente para a sua família, como fará com os outros mais distantes?

Assim, ame os seus, elogie os seus, acaricie os seus, abrace os seus, beije os seus e farás um bom treinamento para fazer isso com o mundo e, claro, com os inimigos.

Não falei eu, falou a Bíblia.

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