DE VOLTA AO PAI

DE VOLTA AO PAI

João Melo e Sousa Bentivi

“… mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. (Gn 2:17)

“Que homem há que viva e não veja a morte, ou que livre a sua alma do poder da sepultura?” (Sl 89:48)

“Assim que o homem começa a viver, tem idade suficiente para morrer”. (Heidegger)

Passando dos 60 anos creio ter uma visão de conjunto bem extensa da vida: da por mim vivida e das vidas por mim presenciadas. Posso dizer que ninguém é o mesmo, a cada dia somos outra pessoa, até assumirmos a condição final de defunto.

Incontáveis diferenças poderia apontar, ater-me-ei a uma comparação pontual da adolescência  com a tal terceira idade. A festa mais comum na adolescência eram os aniversários de 15 anos, mas a efeméride mais frequente na terceira idade são os velórios.

Convivo com vários grupos de idosos masculinos, conversas inteligentes, espirituosas, plêiade de mentirosos na esfera da sexualidade e um papo natural: fulano está hospitalizado ou sicrano faleceu. O diabo é que hospital, nessa faixa etária, rima firmemente como uma canção para dona Lucrécia.

Nesse diapasão, pelo aumento da longevidade, os que nos deixam na faixa dos 60 anos recebem a adjetivação de terem ido cedo demais, como se tantos anos fossem, de fato, precocidade. Entendo isso como uma maneira mentirosa de se acharem jovens, mesmo após os 60 anos.

Uma questão suplementar acontece. À medida que o tempo passa o número de contemporâneos rareia e, de repente, você não tem mais a festa do funeral: todos se foram.

Na minha casa tenho um exemplo vivo. A minha sogra, uma bênção em nossas vidas, teve todos os seus contemporâneos familiares chamados pelo Criador. Às vezes encontro-a pensativa e fico a imaginar se é saudade dos que se foram ou vontade de acompanhá-los. Não sei, felizmente o sorriso voltou a reinar com a presença diária de uma bisneta. Extremos da vida em harmonia significa certeza de alegria. Mais uma lição.

A marcha da vida é inexorável e como um filósofo da Bioética, raciocino e ensino que morte e vida são a mesma face do inexplicável e do indefinível.

Hoje lamentamos pela ida de Rita Palhano, como Rita lamentou pela ida de tantos. Amanhã lamentaremos pela ida de outros, até o dia que outros lamentarão por nós.

Não deve haver lugar para o desespero por algo que não podemos alterar, por isso advogo a fé, ainda que fé eu não tivesse. A fé, nesse momento, é o grande aval da eternidade.

Guardemos a fé.

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