DUAS VERDADES: UMA GLORIOSA E OUTRA DEMONÍACA

A GLORIOSA:

Sim, são duas verdades absolutamente opostas. A primeira foi parte do noticiário da Rede Globo que, em uma série de reportagens, mostrou a parte meritória de alguns médicos. Parabéns para a Rede Globo e parabéns para os colegas citados.

Preste a completar quarenta anos, no exercício da medicina, ouso dizer para a Rede Globo e para o mundo, que essa reportagem é um minúsculo grão de areia na história da atividade médica, mundo afora, especialmente nesse Brasil continental. Excetuando os centros de excelência científica, a maior parte dos médicos brasileiros são sacerdotes, mesmo, e exercem a sua profissão nos limites impossíveis, até inimagináveis.

Tenho uma atividade médica ampla e tenho uma das maiores clientelas na otorrinolaringologia, além de vários locais em que exerço o meu mister, mas todos que me conhecem sabem que o local em que sou mais feliz, como médico, é, exatamente, o SOCORRÃO I. Hoje coordeno uma equipe de jovens otorrinolaringologistas, entretanto, em alguns momentos, no passado, fiquei sozinho no velho hospital. Nunca houve uma reclamação, nem dos pacientes, nem desse médico.

O que infelicita os médicos nunca foi trabalho. Há pouco, esse tal Ministro da Saúde chamou-nos de “vagabundos”, entre outras afirmações do mesmo quilate. Mereceu a repulsa de todos nós, médicos, e até das entidades que representam a categoria. Essa reação das entidades, achei-as tímidas, mas não objetivo criticá-las.

O que critico com aspereza é a falta de condições dignas de trabalho, a falta de uma carreira para médicos e a falta de um programa efetivo e eficiente de atualização dos médicos. Dadas essas três condições, teríamos a melhor medicina do planeta e a maior satisfação dos nossos irmãos pacientes.

Faço parte da penúltima geração de médicos do Ministério da Saúde, porém o meu cargo, nesse ministério, está com um título horrível: cargo extinto a vagar. Ou seja, na hora em me aposentar ou morrer, esse cargo se acaba e não terá substituição por outro profissional. Os jovens médicos, como a minha filha Janaina Bentivi, ou farão uma previdência privada, ou estarão em péssimos lençóis na terceira idade.

As EBSERGS e todas as outras SERGS, que se multiplicam Brasil afora, possuem a mesma ideologia quanto aos profissionais, principalmente médicos: são boias-frias com prazo estipulado. Passado o tempo contratual disposto, em regra cinco anos, voltarão ao ponto zero e farão novo concurso, que a esse tempo, será mais concorrido e mais difícil. Essa geração e outras à frente, podem até conhecer, mas nunca sentirão o sabor da palavra estabilidade.

As condições de trabalho dignas não sofrem nenhuma contestação, no lado mais deplorável: todos sabem que é exceção. Condições indignas são a regra. Nesse mar de indignidades, são parceiros governo, legislativo, judiciário, Ministério Público e entidades médicas. Os primeiros por não darem bola e o último por reivindicações pífias Quantos hospitais e clínicas, no Brasil, receberiam o selo da dignidade? E no Maranhão? E em São Luís? Salvo uma surpresa cavalar, nenhuma.

O terceiro fator, por mim elencado, recebe nota zero, caso não fosse o esforço individual de cada médico. Agora mesmo, ouvindo as notícias, descubro que os nossos ministros do STF, por exemplo, com um salário que é o ápice do funcionalismo, passam temporadas em cursos de reciclagem. Tudo bem? Não sei, mas esses cursos são sempre nos grandes centros turísticos, em hotéis 7 estrelas, com esticadas em outros paraísos e com diárias gordas e opulentas, sem limites.

Por que ninguém quer fazer um curso de extensão no Iraque, na Síria ou na Coreia do Norte?

A reciclagem do médico é, sempre, extremo sacrifício. Tudo na ponta do lápis, ou melhor, na ponta do cartão. Os cursos são caros, deslocamentos também, despesas robustas e, enquanto estiverem na reciclagem, deixarão de ganhar pelo fruto do seu trabalho. Como disse, médico é boia-fria da saúde, caso não trabalhe, não ganha, caso adoeça, do mesmo modo, caso fique inválido, dependerá da clemência doutrens.

Espero alguém que possa apontar, nos últimos 40 anos, o nome de um médico que fez uma reciclagem, estágio ou coisa similar, dentro de um programa de medicina estadual, municipal ou federal. Claro que não estou falando das titulações ou aprimoramentos dentro das universidades e, nesse caso, o foco é o ensino, pesquisa ou extensão.

Finalizo, alegre com a Rede Globo (em mim isso é exceção) e feliz por saber que caso fossem contadas as histórias do trabalho médico, em um só dia sequer, não haveria papel disponível para o relato de tantas ações meritórias.

A DEMONÍACA:

Tenho tratado, com muita raiva, a desimportância das organizações, dos governos, da sociedade civil, como um todo, com a morte costumeira e anônima dos nossos irmãos, policiais militares, do Rio de Janeiro. Com as tais comissões de direitos humanos, qualquer que seja a sua origem, a minha raiva entremeia-se com nojo. Predomina o nojo.

Até esse momento, foram 100, nesse momento, o 100 pode ser passado, infelizmente. Cada policial abatido tem algumas características insofismáveis: cidadão brasileiro, pagador de impostos, com família, com direitos e com deveres de acordo com a lei. Entretanto, por não causar nenhum impacto, tenho a impressão que ser policial militar determina no cidadão uma outra classe de cidadania: não cidadania ou uma cidadania de segunda classe.

Vamos imaginar que esses 100 mortos fossem do time GLBT e etc; fossem mulheres negras; fossem funcionários do MST; fossem ativistas florestais da Amazônia; fossem vagabundos bolivarianos do Forum de São Paulo…

O mundo teria caído, todas as entidades do Brasil e mundo afora, incluindo a ONU, já teriam sido notificadas, o governo Temer esculhambado até a última gota, a imprensa de esquerda e as redes sociais falando, opinando, reclamando à exaustão, as tais comissões de direitos humanos em protestos e vigílias…

Não houve nada disso, a não ser o choro silencioso e solitário das famílias das vítimas. Ficará nisso, só nisso. Para os vagabundos citados, no parágrafo anterior, o policial é alguma coisa, mas não é humano. Não cabe dentro dos tais direitos humanos. Vergonha!

Uma notícia, contudo, é esclarecedora e doída para qualquer cidadão de bem. Vou transcrevê-la:

‘Comerciante de Caldas Novas terá que pagar indenização para família dos assaltantes mortos. Assim afirma a diretora da Secretaria de Direitos Humanos de Goiás, Carmén Santucci. De acordo com ela, mesmo agindo em legítima defesa, o comerciante tirou a vida de dois jovens que davam sustento às suas famílias”.

Precisa dizer mais alguma coisa? Nesse critério de comissão de direitos humanos, é preferível ser marginal e, ao contrário do direto pátrio (essas comissões são especializadas em ferir o direito), o crime além de compensar gera recompensa do próprio estado.

É ou não é coisa do demônio?

2 pensou em “DUAS VERDADES: UMA GLORIOSA E OUTRA DEMONÍACA

  1. Essas indignidades são demoníacas, cujas expressões passam pelas portas do inferno e trafegam pelas avenidas do pecado, até serem entregues pelos agentes do mal para toda a sociedade se empanturrar de pratos tão indigestos… e tudo, no fim das contas, é mera injustiça que fede diante do Altíssimo.

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