PARABÉNS AO AMIGO YGLÉSIO

PARABÉNS AO AMIGO YGLÉSIO

(*) João Melo e Sousa Bentivi (**)

Tenho perfeita dificuldade em falar mal dos meus amigos e o doutor, professor e deputado Yglesio Moisés é um amigo e goza da minha mais profunda admiração.

A amizade familiar vem muito antes do seu nascimento e, por experiência de vida, posso dizer que o nome Yglésio Moisés rima com inteligência, trabalho e seriedade, o que não me obriga e nem me determina a aceitar todos os seus posicionamentos. Nessa matéria não tratarei de nenhuma divergência minha com o Yglésio, muito pelo contrário e, diferente de alguns colegas, com quem tenho conversado, ainda que, no fundo do coração, quisesse criticar o amigo Yglésio, o que está, no centro do meu coração, impediria de fazê-lo.

Deixando para trás a minha amizade e respeito com os seus familiares, reenfatizo que com o Yglesio sempre tive o coração aberto, tanto como colega médico, como professor universitário como um seu auxiliar, quando, brilhantemente dirigiu o Socorrão I e  eu coordenava a ORL. Pude, com ele, colaborar e aprender. Não votei nele, mas dentro de minha atividade médica (ele bem sabe), contribuí com muita felicidade, com a sua vitoriosa campanha: tenho orgulho de tê-lo feito.

É da lavra do Yglésio a melhor ideia para o novo Socorrão de São Luís, cuja construção, por irresponsabilidade de prefeitos, hoje nada mais é que uma promessa eleitoreira, escondida nem se sabe por onde e nem mesmo se ela, um dia, foi urdida com seriedade.

Elogios passados, vamos ao hoje: uma interessante nota, atribuída ao deputado Yglesio, médico, circula nas redes sociais. O destinatário é governador Dino, não médico: ”Governador @FlavioDino, não aceite pegar pressão por esse medicamento de quem quer que seja, incluindo associações médicas. Altíssimas chances de jogar dinheiro público fora. Espero que outro fármaco tenha  resultado. Esse aí  já era”. Diz a simples lógica que essa coisa para jogar dinheiro fora refere-se a essa tal hidroxicloroquina.

 

Reitero que não farei juízo de valor contra o pensamento do querido Yglésio, principalmente na condição do médico que sou, mas serei simplesmente o jornalista tentando desvendar o não dito, na nota do  atento parlamentar.

O primeiro conselho é “não aceite  pegar pressão…por quem quer que seja”. Salta a primeira dúvida: quem estaria pressionando o  notável  governante? O povo? Os mortos? As associações médicas estão apontadas e eu ainda pergunto: o Bolsonaro? Respondo que o Bolsonaro não tem a menor chance de pressionar o governador, pois o STF garantiu ao governador a direção absoluta na crise do covid. Tanto os vivos, como os mortos referem-se a gestão do governador.

“Altíssimas chances de jogar dinheiro fora”. Nesse momento pensei não se tratar da tal HCQ, pois essa droga é tão barata que, ainda que distribuída a todos os maranhenses, custaria muito pouco. Aí pensei: o deputado pode estar preocupado, quem sabe, com algum desvio do dinheiro público? Vou tranquilizá-lo. Meu querido parlamentar, um corrupto que se preze, entre surrupiar o erário com HCQ ou respirador, sempre escolherá o respirador. Evidente que isso não acontecerá, jamais, por aqui, mas valeu a preocupação do nosso representante da classe médica.

Ainda sentado, em frente ao computador, leio uma notícia que me deixou estupefato: o governo do Maranhão liberou a prescrição da HCQ. Minha tola cabecinha fervilhou e surgiram dúvidas, não afeitas mais a nota do amigo Yglésio. O problema é que a minha ignorância não tem resposta para nenhuma de minhas dúvidas.

A HCQ será efetiva somente a partir de agora? Há quase três meses  não prestava? Caso tivessem-na usado desde o início, teríamos mais óbitos ou menos óbitos? Como o deputado Yglésio, médico, disse para não usar, o secretário de saúde e o governador, advogados, mandam agora ministrar, em quem teremos maior confiança, no médico ou nos advogados? O governo do Maranhão ao se render ao uso da HCQ estaria concordando com o doidão do Bolsonaro?

Finalmente, com a cabeça em pânico, com tantas perguntas e nenhuma resposta, pensei em algo que não se relaciona com a postagem do meu querido deputado. Agora que o governo do Maranhão, aceitando o uso da HCQ, perdeu o primeiro grande round para Jair Messias Bolsonaro, quando será que  esse governo decretará a morte do inoperante lockdown?

Aí já será 2×0 para o Bozo, início de goleada?

Tenho dito.

EM TEMPO: Há vários dias espero uma declaração formal de qualquer colega médico, contrário a HCQ, afirmando publicamente, mais ou menos assim: Eu, fulano de tal, asseguro, de forma irrevogável e irretratável, que, caso seja contaminado pelo covid 19, não aceito, em nenhuma hipótese, o uso, em mim, dessa besteira chamada hidroxicloroquina.

Não apareceu um só e, por minhas investigações, uma parte dos detratores da droga estão com um estoque escondido em casa, para qualquer eventualidade.

Compreendo que, nesse caso,  há uma perfeita simbiose entre a defesa da vida e falta de vergonha. Como disse, compreendo e acrescento um canônico perdão.

(*) Médico otorrinolaringologista, legista, jornalista, advogado, professor universitário, músico, poeta, escritor e doutor em Administração, pela Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal.

(**) Pode ser reproduzido, sem a anuência do autor, em qualquer      plataforma de comunicação.

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