TORNEI-ME UM MONSTRO (*)

João Melo e Sousa Bentivi

Um dia, sem meu querer, fui projeto gestado

Nas entranhas do útero de um maior amor

Nada poderia, nem de longe, ser contestado

Estava escrito, então, mais um milagre do Senhor

 

Sem perceber, no dia a dia, em mim foi se juntando

Pedaços enormes e coloridos com estranha emoção

Cada pedacinho, em verdade, representando

As marcas de tantas pessoas, em meu velho coração

 

Sem entender, insidiosa ataca a velhice inclemente

Percebo a minha volta a multidão de ausentes

E cada um que se foi tirou de mim um pedaço

 

Estou menor, monstruoso, me assegura a vaidade

O fim, tão próximo e incansável, leva toda esperança

Mas deixa, assim, de lambança, o refúgio da saudade.

(*) Uma homenagem aos meus amigos que se foram com o tal covid

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